Contaminação do alimento por agrotóxicos

Dois estudos realizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que 22,17% de frutas, verduras e legumes vendidos em supermercados têm excesso de agrotóxicos. E mais: 34% de uma lista dos alimentos industrializados mais consumidos apresentam problemas de higiene.

Poucos sabem, mas o consumidor brasileiro paga a maior carga tributária do mundo sobre a alimentação. "Pagamos impostos demais para termos uma qualidade tão ruim de alimentos", diz Sezifredo Paz, 43, consultor técnico do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor). De acordo com o estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, 21,7% do preço dos alimentos corresponde a tributos, taxa recorde no mundo.

A situação mais séria, segundo os técnicos da Anvisa, é a contaminação dos alimentos por agrotóxicos. Segundo o médico sanitarista Pedro Germano, 57, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, quem consome alimentos com resíduos de pesticidas pode sofrer de problemas hepáticos (cirroses) e distúrbios do sistema nervoso central.

A Anvisa também analisou a qualidade dos alimentos industrializados. Os primeiros estudos foram realizados a partir de 5.648 amostras de café, doces, especiarias, sorvetes, massas e alimentos congelados. As especiarias e os sorvetes tiveram índices de reprovação de 68% e 47%, respectivamente. As principais irregularidades referem-se à contaminação por falta de higiene e de cuidados quanto à temperatura e à pasteurização no processo de produção.

Sinais e Sintomas do Envenenamento por Agrotóxicos

A ação dos agrotóxicos sobre a saúde humana costuma ser deletéria, muitas vezes fatal, provocando desde náuseas, tonteiras, dores de cabeça ou alergias até lesões renais e hepáticas, cânceres, alterações genéticas, doença de Parkinson etc. Essa ação pode ser sentida logo após o contato com o produto (os chamados efeitos agudos) ou após semanas/anos (são os efeitos crônicos) que, neste caso, muitas vezes requerem exames sofisticados para a sua identificação.

Sintomas de intoxicação podem não aparecer de imediato. Deve-se prestar atenção à possível ocorrência desses sintomas, para que possam ser relatados com precisão. O agricultor intoxicado pode apresentar as seguintes alterações:
  •  irritação ou nervosismo;
  •  ansiedade e angústia;
  •  fala com frases desconexas;
  •  tremores no corpo;
  •  indisposição, fraqueza e mal estar, dor de cabeça, tonturas, vertigem, alterações visuais;
  •  salivação e sudorese aumentadas;
  •  náuseas, vômitos, cólicas abdominais;
  •  respiração difícil, com dores no peito e falta de ar;
  •  queimaduras e alterações da pele;
  •  dores pelo corpo inteiro, em especial nos braços, nas pernas, no peito;
  •  irritação de nariz, garganta e olhos, provocando tosse e lágrimas;
  •  urina alterada, seja na quantidade ou cor;
  •  convulsões ou ataques: a pessoa cai no chão, soltando saliva em grande quantidade, com movimentos desencadeados de braços e pernas, sem entender o que está acontecendo;
  •  desmaios, perda de consciência até o coma.
É preciso salientar que sintomas inespecíficos (dor de cabeça, vertigens, falta deapetite, falta de forças, nervosismo, dificuldade para dormir) presentes em diversas patologias, freqüentemente são as únicas manifestações da intoxicação por agrotóxicos, razão pela qual raramente se estabelece esta suspeita diagnóstica. A presença desses sintomas em pessoas com história de exposição a agrotóxicos deve conduzir à investigação diagnóstica de intoxicação. É importante lembrar também que enfermidades podem ter outras causas, além dos produtos envolvidos. Um tratamento equivocado pode piorar as condições do enfermo.

Sinais e Sintomas    
        

Sinais e Sintomas Única ou por curto período Continuada por longo período

Agudos: cefaléia, tontura, náusea, vômito, fasciculação muscular, parestesias, desorientação, dificuldade respiratória, coma, morte. hemorragias, hipersensibilidade, teratogênese, morte fetal.
Crônicos: paresia e paralisias reversíveis, ação neurotóxica retardada irreversível, pancitopenia, distúrbios neuro-psicológicos. lesão cerebral irreversível, tumores malignos, atrofia testicular, esterilidade masculina, alterações neuro-comportamentais, neurites periféricas, dermatites de contato, formação de catarata, atrofia do nervo óptico, lesões hepáticas, etc.
Fonte:
www.geofiscal.eng.br (Quadro 3) Efeitos da Ação Prolongada
 
ÓRGÃO/SISTEMA

EFEITOS NO ORGANISMO

Sistema nervoso Síndrome asteno-vegetativa, polineurite, radiculite, encefalopatia, distonia vascular, esclerose cerebral, neurite retrobulbar, angiopatia da retina Sistema respiratório Traqueíte crônica, pneumofibrose, enfisema pulmonar, asma brônquica
Sistema cardiovascular Miocardite tóxica crônica, insuficiência coronária crônica, hipertensão, hipotensão Fígado Hepatite crônica, colecistite, insuficiência hepática Rins Albuminúria, nictúria, alteração do clearance da uréia, nitrogênio e creatinina Trato gastrointestinal Gastrite crônica, duodenite, úlcera, colite crônica (hemorrágica, espástica, formações polipóides), hipersecreção e hiperacidez gástrica, prejuízo da motricidade Sistema hematopoético Leucopenia, eosinopenia, monocitose, alterações na hemoglobina Pele Dermatites, eczemas Olhos Conjuntivite, blefariteFonte: www.geofiscal.eng.br (Quadro 4) As hortaliças e as culturas do tomate, morango, batata e fumo utilizam agrotóxicos conhecidos como organofosforados e ditiocarbamatos, que são considerados por pesquisadores como os prováveis causadores das doenças neurocomportamentais, depressão e do consequente suicídio.

Wanderlei da Silva, 33 anos, é um exemplo clássico dos males causados pelos agrotóxicos. As intoxicações lhe causaram lesões cerebrais e consequentes problemas de locomoção e comportamento, além de depressão profunda e sintomas de esquizofrenia, que tem sido relatada na literatura médica como um dos desfechos de intoxicação crônica por organofosforado, segundo o epidemiologista Lenine A. Carvalho, que acompanhou o caso.

PRINCIPAIS SINTOMAS DE INTOXICAÇÃO E DIAGNÓSTICO ORGANOCLORADOS Podem iniciar-se logo após o acidente ou até 24 horas depois. Em casos de inalação, podem ocorrer sintomas específicos, como tosse, rouquidão, irritação de garganta, coriza, dificuldade respiratória, hipertensão arterial, pneumonia por irritação química, edema pulmonar. Em casos de intoxicação aguda, por atuarem no sistema nervoso central, impedindo a transmissão nervosa normal, podem ocorrer estimulação do sistema nervoso central e
hiperirritabilidade, cefaléia (que não cede aos analgésicos comuns), sensação de cansaço, mal estar, náuseas e vertigens com confusão mental passageira e transpiração fria, redução da sensibilidade (língua, lábio, face, mãos), contrações musculares involuntárias, perdas de apetite e peso, tremores, lesões hepáticas e renais, crise convulsiva, coma. Fonte: www.sucen.sp.gov.br

A confirmação de exposição aos organoclorados poderá ser feita através de dosagem do teorde resíduos no sangue, utilizando-se cromatografia em fase gasosa. A simples presença de resíduos no sangue não indica intoxicação; a concentração é que confirma o resultado.

Alguns compostos organoclorados:
DDT, DDD, BHC, Aldrin e Endossulfan.

ORGANOFOSFORADOS/CARBAMATOS Inicialmente: suor e salivação abundante, lacrimejamento, debilidade, cefaléia, tontura e vertigens, perda de apetite, dores de estômago, visão turva, tosse com expectoração clara, possíveis casos de irritação na pele (organofosforados). Posteriormente: pupilas contraídas e não reativas à luz, náuseas, vômitos e cólicas abdominais, diarréia, dificuldade respiratória (principalmente com os carbamatos), contraturas musculares e cãibras, opressão torácica, confusão mental, perda de sono, redução da freqüência cardíaca/pulso, crises convulsivas (nos casos graves), coma, parada cardíaca (nos casos graves, é a causa freqüente de óbito).

A determinação das atividades das colinesterases, que desempenham papel fundamental na transmissão dos impulsos nervosos - tem grande significado para o diagnóstico e acompanhamento das intoxicações agudas. Intoxicações graves, por exemplo, apresentarão níveis muito baixos de colinestareses.

No Sul do País o agrotóxico Tamaron é utilizado em larga escala na cultura do fumo e está associado ao elevado índice de suicídios em 1995 na cidade de Venâncio Aires (RS): 37 casos/100.000 habitantes, quando no Estado, o índice é de 8/cem mil. Estudos conduzidos no Rio Grande do Sul por 4 pesquisadores brasileiros mostraram que os agrotóxicos organofosforados causam basicamente 3 tipos de sequelas neurológicas após intoxicação aguda ou devido a exposição crônica:

1) Polineuropatia retardada:fraqueza progressiva e ataxia das pernas, podendo evoluir até uma paralisia flácida; sintomas provocados pelos agrotóxicos: Triclorphon, Triclornato, Metamidophos e Clorpyriphos.

2) Síndrome intermediária: paralisia dos músculos do pescoço, perna e pulmão, além de diarréia intensa; ocorre de um a quatro dias após o envenenamento e apresenta risco de morte devido a depressão respiratória associada. Causada por: Fenthion, Dimethoate, Monocrotophos e Metamidophos.

3) Efeitos comportamentais: insônia ou sono perturbado, ansiedade, retardo de reações, dificuldade de concentração e uma variedade de sequelas psiquiátricas: apatia, irritabilidade, depressão, esquizofrenia.

Alguns compostos organofosforados:
Clorpirifós, Coumafós, Diazinon, Diclorvos (DDVP), Fenitrotion, Fenthion, Supona (Clorfenvinfos) e Triclorfon (Metrifonato).

Alguns compostos carbamatos:
Carbaril, Propoxur, Trisdimetilditiocarbamato, Aldicarb e Carbofuran.

PIRETRÓIDES Embora pouco tóxicos do ponto de vista agudo, são irritantes para os olhos e mucosas, causando tanto alergias de pele (coceira intensa, manchas) como crises de asma brônquica (dificuldade respiratória, espirros, secreção, obstrução nasal). Em exposições ocupacionais a altas concentrações, algumas pessoas relatam sensação de adormecimento (formigamento) das pálpebras e ao redor da boca (sensação semelhante à do anestésico usado por dentistas), que desaparece espontaneamente em poucas horas. Não existem provas laboratoriais específicas para dosar resíduos ou efeitos de piretróides no organismo humano ou animal.

Alguns compostos à base de piretrinas e piretróides:
Usos: como inseticidas e/ou acaricidas.
Cipermetrina, Deltametrina, Permetrina; Piretrinas naturais: Piretro e Tetrametrina. Outros: Aletrina e Fenvalerato.

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